Para usar as cartas de suscetibilidade do Serviço Geológico do Brasil no TFG, confirme se o município possui produto publicado, baixe carta, nota técnica e dados associados, identifique os processos representados e situe a área de estudo na classe correspondente. Depois transforme essa leitura em perguntas para campo e projeto. A carta é um zoneamento básico de propensão a fenômenos; não é mapa de risco, laudo geotécnico nem autorização para implantar.
Essa distinção é central. A suscetibilidade relaciona características do meio físico à possibilidade relativa de ocorrência de processos como movimentos gravitacionais de massa e inundações. O risco depende também de exposição, vulnerabilidade, ocupação e consequências. Um trecho de encosta sem pessoas ou estruturas pode ser suscetível sem apresentar o mesmo risco de uma área urbana ocupada sob condição semelhante.
Localize o produto completo do município
O Serviço Geológico do Brasil organiza as cartas de suscetibilidade por estado. Procure o município e abra os materiais disponíveis. Não trabalhe apenas com uma imagem recortada encontrada em apresentação, notícia ou rede social; a legenda, a escala, a nota explicativa e os arquivos geoespaciais são necessários para entender a informação.
As orientações do SGB sobre as cartas descrevem um produto municipal de zoneamento básico, com base em fatores naturais predisponentes, dados secundários, modelagem e validação de campo. A escala de referência informada para esse mapeamento é 1:25.000. Isso permite leitura territorial, mas não oferece precisão cadastral para localizar fundação, muro, talude ou limite exato dentro de um lote.
Baixe a versão mais recente indicada na página e registre ano, edição e data de acesso. Guarde PDF, nota, vetores ou rasters e legenda na mesma pasta. Se houver atualização posterior, não substitua silenciosamente a base usada na análise: compare versões e documente a mudança.
Leia processos e classes separadamente
Abra a legenda antes de interpretar as cores. Movimentos de massa e inundações têm condicionantes e geometrias distintas. Encostas podem ser classificadas segundo propensão relativa a processos gravitacionais; planícies e vales podem receber classes associadas a inundação. Uma mesma cor não deve ser transferida de uma prancha para outra sem conferir o fenômeno representado.
Leia a descrição de cada classe e os fatores apresentados na nota. A classe alta não significa certeza de ocorrência imediata; a baixa não significa impossibilidade. Trata-se de comparação relativa dentro do modelo e do território mapeado. Condições locais, intervenções, drenagem, cortes, aterros e eventos posteriores podem alterar o quadro observado em escala maior.
Se o produto traz áreas sem classificação ou com baixa confiabilidade, mantenha-as explícitas. Transparência, cinza ou ausência de cor não devem ser convertidos automaticamente em classe baixa. Da mesma forma, não suavize o raster ou vetor para produzir uma borda visualmente mais bonita: a generalização faz parte da escala do dado.
Não transforme suscetibilidade em risco
Suscetibilidade descreve a predisposição do terreno. Perigo acrescenta a possibilidade de ocorrência em determinado contexto ou período. Risco envolve ainda pessoas, bens, infraestrutura, vulnerabilidade e consequências. No TFG, usar esses termos como sinônimos altera o significado técnico do diagnóstico.

Não escreva que “o terreno está em risco alto” apenas porque ele cruza uma zona de alta suscetibilidade. Uma formulação responsável informa que a área se encontra total ou parcialmente numa classe relativa a determinado processo e que a implantação requer investigação em escala de projeto.
O mapa também não determina sozinho remoção, proibição, estabilidade ou solução construtiva. Essas decisões dependem de legislação aplicável, estudos específicos, responsabilidade técnica e órgãos competentes. No trabalho acadêmico, delimite a contribuição da carta como evidência preliminar para escolha, comparação e aprofundamento.
Georreferencie e confronte o recorte
Se houver arquivo vetorial ou raster georreferenciado, prefira-o ao recorte de PDF. Confira sistema de referência, extensão e atributos. Caso precise georreferenciar a carta, use pontos estáveis e distribua controles pela imagem; o procedimento está explicado em como georreferenciar mapa ou planta no QGIS.
Sobreponha limite municipal, área de estudo, relevo, drenagem e sistema viário. O objetivo não é criar uma pilha de camadas, mas entender por que uma zona aparece naquele lugar. Verifique se encostas mais íngremes, vales ou canais coincidem com o padrão indicado, respeitando que cada fonte pode ter resolução e data diferentes.
Calcule quanto da área de estudo cruza cada classe somente se a geometria e a escala justificarem. Um percentual com duas casas decimais pode transmitir precisão incompatível com 1:25.000. Use valores aproximados, registre o método e evite conclusões baseadas em uma pequena interseção junto à borda generalizada.
Transforme a carta em roteiro de campo
A cartografia ajuda a decidir onde observar. Selecione pontos em classes contrastantes, bordas entre zonas, contatos de encosta com ocupação, caminhos de drenagem e locais que afetam acesso ou implantação. Em campo, registre forma do relevo, cortes, aterros, sinais de erosão, surgências, trincas, drenagem superficial e intervenções recentes, sem converter observação visual em diagnóstico geotécnico conclusivo.

Fotografe com localização e direção, quando permitido, e use ficha padronizada. Compare a visita com a nota técnica: o padrão observado é coerente? Há alteração antrópica posterior? A drenagem foi modificada? Existem sinais que exigem avaliação especializada? Registre também ausências e incertezas.
Um levantamento acadêmico não substitui sondagem, ensaio, projeto de drenagem ou parecer profissional. Se a proposta depende de estabilização, contenção ou fundação em condição sensível, indique a necessidade do estudo correspondente como requisito de desenvolvimento.
Leve a evidência para as decisões do TFG
Converta a leitura em critérios proporcionais. Uma zona suscetível pode orientar comparação entre alternativas de implantação, preservação de drenagens, afastamento preliminar, redução de movimentação de terra ou necessidade de estudo específico. Evite apresentar distância fixa ou solução universal sem norma, órgão e investigação aplicáveis.
Relacione o resultado ao relevo. Para construir mapas derivados de modelo de elevação, veja como analisar relevo e declividade com TOPODATA. A declividade ajuda a descrever forma, mas não reproduz sozinha o modelo de suscetibilidade, que considera outros fatores e procedimentos.
Na matriz de decisão, separe evidência, consequência e pendência. A evidência vem da classe e da nota; a consequência é um critério preliminar de projeto; a pendência identifica a checagem técnica antes de avançar. Essa estrutura impede que um dado regional seja usado para fechar uma decisão local.
Apresente a carta sem perder contexto
Na prancha, inclua localização municipal, área de estudo, fenômeno, classes, escala, fonte, edição e nota de limitação. Não redesenhe a legenda com cores que invertam a ordem original. Se simplificar o número de classes, informe o agrupamento e preserve a correspondência.
Inclua também um quadro curto de leitura. Para cada área que interfere na proposta, informe classe, processo, evidência complementar e providência. Esse quadro não precisa repetir toda a nota técnica; ele deve revelar como o zoneamento territorial entrou no raciocínio. Se duas alternativas de implantação atravessam classes diferentes, apresente a comparação com a mesma escala e os mesmos critérios. Se ambas permanecem na mesma classe, não force uma distinção que a carta não oferece: use outros dados e assuma que a decisão depende de investigação mais detalhada.
Na metodologia, cite produto, produtor, endereço, data de acesso, arquivos, sistema de referência e operações realizadas. Guarde originais e derivados em pastas separadas. Para organizar hierarquia, escala e fontes, consulte como montar uma prancha de mapa no QGIS.
A análise está madura quando o leitor entende qual processo foi mapeado, em que escala, por qual método e com que limite. Assim, a carta do SGB sustenta uma triagem territorial responsável, orienta investigação e qualifica o projeto sem ser apresentada como mapa de risco ou laudo do lote.



