Para elaborar um roteiro de entrevista semiestruturada no TCC, converta cada objetivo específico em temas de investigação, formule perguntas abertas sobre experiências concretas e prepare sondagens neutras para aprofundar respostas. O roteiro não é um questionário rígido nem uma conversa sem direção. Ele mantém um núcleo comparável entre participantes e, ao mesmo tempo, permite explorar exemplos, significados e situações imprevistas relevantes para o problema.
Confirme por que a entrevista é necessária
Antes de escrever perguntas, explique qual tipo de dado a entrevista deve produzir. Essa técnica é adequada quando o estudo precisa compreender experiências, percepções, decisões, práticas, trajetórias ou sentidos atribuídos pelos participantes. Ela não substitui documentos, observação ou mensuração quando a pergunta exige verificar comportamento, frequência ou regra formal.
Pergunte o que só aquela pessoa, naquela posição, pode informar. Um trabalhador pode relatar como executa uma tarefa; um gestor pode explicar critérios de decisão; um usuário pode descrever barreiras vividas. Nenhum desses relatos comprova sozinho como a organização inteira funciona. A relação entre fonte e afirmação precisa permanecer explícita.
Defina também quem pode responder à pergunta de pesquisa. Critérios de inclusão não devem se limitar a “quem estiver disponível”. Experiência no fenômeno, papel exercido, período de participação e diversidade relevante ajudam a justificar a seleção. O número de entrevistas depende do desenho, da heterogeneidade do grupo, da profundidade e da estratégia analítica, não de uma fórmula universal.
O material educacional da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa sobre métodos da pesquisa situa entrevistas entre as técnicas que precisam ser coerentes com objetivos, participantes e procedimentos previstos. Use as exigências do seu projeto e da instituição como referência, especialmente quando houver seres humanos.
Transforme objetivos em temas e perguntas
Construa uma matriz com objetivo específico, tema, informação necessária, pergunta principal e possíveis sondagens. Se o objetivo é compreender barreiras de acesso, por exemplo, os temas podem envolver primeiro contato, situações de dificuldade, apoio recebido e estratégias adotadas. Cada tema precisa contribuir para a análise planejada.
Evite copiar o objetivo como pergunta. “Como analisar as barreiras enfrentadas?” solicita ao participante um trabalho que pertence ao pesquisador. Prefira perguntas ancoradas na experiência: “Conte como foi a primeira vez que você tentou acessar o serviço” ou “Em que momentos o acesso ficou mais difícil?”. Depois use sondagens como “O que aconteceu em seguida?” e “Você consegue dar um exemplo?”.
Uma pergunta deve tratar de uma ideia por vez. “Como foi o atendimento e por que você gostou?” presume avaliação positiva e mistura descrição com causa. Separe: “Como foi o atendimento?”; se a pessoa expressar uma avaliação, explore o que contribuiu para ela. Perguntas neutras reduzem a pressão para confirmar expectativas do pesquisador.
O manual da Fiocruz sobre coleta de dados apresenta a entrevista como uma interação orientada por objetivos e destaca preparação, registro e postura do entrevistador. Essa combinação ajuda a entender por que um bom roteiro organiza a conversa sem antecipar a resposta.

Escreva perguntas que convidem narrativa e exemplo
Comece com perguntas simples de contextualização que ajudem a pessoa a localizar sua experiência, sem coletar dados pessoais desnecessários. Em seguida, avance para episódios concretos, percepções, comparações e consequências. Deixe temas sensíveis para depois que a interação estiver estabelecida e encerre com espaço para algo relevante que não tenha sido perguntado.
Perguntas abertas não precisam ser vagas. “Fale sobre sua experiência” pode produzir uma resposta extensa e pouco relacionada ao estudo. Delimite o contexto sem fechar as possibilidades: “Conte como ocorreu sua adaptação ao sistema durante o primeiro mês”. A pessoa escolhe o que foi relevante, mas o recorte continua compatível com o objetivo.
Evite alternativas embutidas, julgamento e vocabulário técnico que o participante não usa. Em vez de “A burocracia prejudicou sua adesão?”, pergunte “Que fatores facilitaram ou dificultaram sua participação?”. Em vez de “Você considera a governança eficiente?”, investigue como decisões foram tomadas e comunicadas.
Prepare sondagens, mas não as dispare como uma bateria. Elas servem para esclarecer tempo, atores, sequência, razão, exemplo, contraste e consequência. Use-as quando a resposta exigir aprofundamento e aceite silêncio breve. Interromper cedo demais pode substituir a elaboração do participante pela interpretação do entrevistador.
Organize um núcleo comum e uma margem flexível
Todas as entrevistas devem cobrir os temas essenciais, ainda que a ordem mude. Esse núcleo comum permite comparar casos. A flexibilidade serve para seguir uma experiência inesperada, adaptar a linguagem e pedir esclarecimentos, não para abandonar objetivos ou fazer perguntas completamente diferentes a cada pessoa.
No documento de aplicação, diferencie pergunta principal, sondagem opcional e nota do entrevistador. Notas podem lembrar que determinado conceito não deve ser explicado antes da resposta, que uma informação sensível precisa de cuidado ou que a pergunta deve ser omitida quando não se aplica. Essas orientações não são lidas ao participante.
Estime duração pela quantidade de temas e pela profundidade esperada. Um roteiro com trinta perguntas abertas dificilmente cabe em uma conversa curta. Priorize questões que gerem dados necessários e retire duplicações. Perguntar a mesma ideia com palavras diferentes pode cansar a pessoa e criar falsa sensação de volume analítico.
Inclua uma abertura oral separada das perguntas: apresentação, propósito, duração aproximada, caráter voluntário, possibilidade de não responder, forma de registro e canal para dúvidas. O consentimento deve seguir o protocolo aprovado ou definido pela instituição. Se a pesquisa precisar de avaliação ética, o roteiro submetido deve corresponder ao que será aplicado.
Faça pré-teste e registre o que mudou
O pré-teste verifica compreensão, ordem, duração, sensibilidade e capacidade de gerar material analisável. Aplique o roteiro com uma pessoa semelhante ao perfil pretendido, sem incluir automaticamente esse encontro no corpus. Observe quais termos exigem explicação, onde a conversa trava, quais perguntas se repetem e quais respostas não ajudam a atender aos objetivos.
Não avalie apenas se a pessoa “gostou”. Confira se as perguntas evocaram episódios concretos, se as sondagens foram neutras e se algum enunciado revelou pressuposto. Cronometre blocos, não só o total, para identificar temas desproporcionais. Após a aplicação, revise linguagem e ordem sem perder a correspondência com a matriz.
Mudanças substanciais no instrumento depois do início da coleta podem afetar comparabilidade e, em estudos submetidos ao sistema de ética, podem exigir procedimento formal antes de continuar. Planeje o pré-teste antes da aplicação definitiva e consulte a orientação institucional. O artigo sobre TCC com entrevistas e Comitê de Ética ajuda a separar decisão metodológica de exigência ética.

Planeje registro, segurança e análise antes da coleta
Decida como a entrevista será registrada e analisada antes de convidar participantes. Gravação exige informação e consentimento compatíveis com o protocolo. Anotações sem áudio podem perder formulações e sequência, enquanto áudio sem notas pode apagar contexto, interrupções e condições da conversa. Escolha com base no risco, no objetivo e nos recursos disponíveis.
Explique armazenamento, acesso, prazo de guarda, anonimização e descarte. Não prometa anonimato absoluto se cargo, trajetória ou evento puder identificar a pessoa por combinação de detalhes. Avalie como trechos serão apresentados e retire informações que não sejam necessárias. A página de apoio em metodologia mostra como instrumento, análise e ética precisam formar um plano único.
Crie códigos para participantes e separe a chave de identificação do material analítico quando houver necessidade de mantê-la. Proteja arquivos durante transferência, transcrição e revisão. Serviços externos de transcrição ou inteligência artificial não devem receber dados identificáveis sem avaliação de consentimento, contrato, segurança e regras institucionais.
Por fim, faça uma entrevista simulada lendo o roteiro em voz alta. Marque onde sua entonação sugere resposta, onde há termos artificiais e onde duas perguntas competem. Um roteiro semiestruturado está pronto quando cobre o núcleo necessário, cabe no tempo, respeita o participante e produz material que pode ser analisado segundo o método anunciado.
O rigor não vem de repetir exatamente a mesma sequência, mas de preservar finalidade, neutralidade, registro e comparabilidade. Quando objetivos, temas, perguntas, sondagens e análise estão ligados desde o início, a entrevista deixa de ser uma conversa interessante e se torna uma fonte acadêmica defensável.



