Citação indireta é a ideia da fonte reescrita com suas palavras; citação direta é a reprodução fiel de um trecho. Dentro da direta, o tamanho define a apresentação: até três linhas costuma permanecer no parágrafo, entre aspas; com mais de três linhas, passa para um bloco destacado. Essa escolha vem antes da formatação. Primeiro decida por que aquela voz precisa entrar no argumento; depois aplique chamada, página ou outro localizador e confira se a obra aparece nas referências. O guia do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal de Jataí sobre a NBR 10520:2023 detalha esses três tipos e os dois sistemas de chamada.
A decisão começa pela função do trecho, não pelo número de linhas
Uma fonte pode cumprir papéis diferentes. Às vezes, você precisa aproveitar a explicação de um autor sem conservar sua redação; em outras, a escolha exata das palavras é parte da evidência. Essa diferença separa paráfrase e transcrição. O número de linhas só passa a importar depois que a decisão pela citação direta já foi tomada.
Use a citação indireta quando o objetivo for sintetizar um raciocínio, relacionar estudos ou adaptar uma formulação ao fluxo do seu capítulo. Reescrever não significa trocar palavras isoladas por sinônimos. É preciso compreender a proposição, reconstruí-la de modo fiel e indicar a fonte. Se a frase preserva a estrutura e quase todo o vocabulário do original, ela continua próxima de uma transcrição, mesmo sem aspas.
A direta faz sentido quando a formulação tem valor próprio: a definição oficial de um conceito, um dispositivo normativo, uma fala analisada ou uma passagem cuja escolha lexical será discutida. Transcrever apenas para dar aparência de autoridade tende a interromper o texto. Antes de inserir, complete mentalmente a frase: “este trecho precisa aparecer literalmente porque…”. Se não houver uma resposta concreta, a paráfrase costuma servir melhor.
Uma árvore de decisão simples ajuda: a redação exata será analisada? Se sim, use citação direta. Se não, a ideia pode ser reconstruída com fidelidade? Se sim, use indireta. Se você não teve acesso ao documento original e encontrou o trecho reproduzido por outra obra, não trate como consulta direta: avalie a citação de citação e deixe claro qual fonte efetivamente leu.

Como construir uma citação indireta que não distorce a fonte
Comece isolando a afirmação central do trecho consultado. Pergunte qual relação o autor estabelece: causa, comparação, definição, condição, limite ou resultado. Em seguida, feche a fonte e escreva essa relação dentro da lógica do seu parágrafo. Por fim, reabra o original e confira se você ampliou, reduziu ou alterou o alcance da afirmação.
Esse último controle é decisivo. Uma pesquisa que identificou associação em determinado grupo não pode virar prova de causa para qualquer população. Uma recomendação condicionada a certo contexto não deve aparecer como regra geral. A paráfrase é sua redação, mas a responsabilidade pelo sentido permanece ligada à fonte.
No sistema autor-data, a autoria pode participar da frase — por exemplo, “Silva (2024) relaciona…” — ou aparecer entre parênteses depois da proposição. Na citação indireta, a indicação de página ou localização é opcional segundo o material da UFJ sobre a edição de 2023. Ainda assim, registrar a página nas suas notas de pesquisa facilita a auditoria, a revisão e uma futura transformação do trecho em citação direta.
Evite começar vários parágrafos com “Segundo”. A chamada pode entrar depois da afirmação, e a análise pode ocupar o centro do período. Compare: “Segundo A, o fenômeno ocorre. Segundo B, há outra explicação.” A segunda forma, mais analítica, seria: “As duas explicações divergem sobre o mecanismo: A (2022) atribui o efeito ao desenho institucional, enquanto B (2024) localiza a mudança nas práticas dos participantes.” A fonte deixa de ser um adereço e passa a sustentar uma relação.
Citação direta curta: transcrever, localizar e comentar
Quando a transcrição ocupa até três linhas no seu texto, ela permanece dentro do parágrafo e usa aspas duplas. A chamada identifica autoria, ano e página ou outro localizador disponível. A contagem considera como o trecho aparece no documento em edição, não quantas linhas ele ocupava na fonte original.
O ponto principal não é decorar onde fica cada sinal, mas preservar uma unidade legível. Apresente o motivo da citação, insira o trecho e explique sua consequência. Uma citação curta abandonada no final do parágrafo força o leitor a descobrir sozinho por que ela foi escolhida. Já uma frase que apenas repete o conteúdo citado também não acrescenta análise.
Documentos digitais podem não ter página. A orientação da UFJ admite outro localizador quando ele existe no documento, como capítulo, artigo, inciso ou marca temporal. Não invente paginação com base na tela do navegador. Para uma lei, por exemplo, artigo e inciso localizam melhor que a página de uma impressão variável; para um vídeo, a marca de tempo pode cumprir essa função.
Se precisar omitir uma parte do trecho, acrescentar esclarecimento ou indicar destaque, consulte o manual adotado pela instituição. O guia da UFJ apresenta sinais para supressões e acréscimos e registra formas de indicar tradução ou grifo do próprio autor do TCC. Faça essas intervenções sem alterar o sentido e mantenha uma cópia da passagem original no fichamento.
Citação direta longa: o bloco precisa continuar dentro do argumento
Com mais de três linhas, a transcrição é destacada em relação à margem esquerda, usa fonte menor que a do corpo, espaçamento simples e não leva aspas. A NBR 10520:2023 recomenda recuo de 4 cm, mas o manual do curso pode fixar a apresentação operacional do trabalho. A UNIFAL-MG informa que atualizou seu manual institucional em razão da NBR 10520:2023, o que ilustra por que vale consultar a orientação local mais recente.
Não transforme cada passagem longa em um “quadro” visual. O bloco destacado ainda é uma citação e deve estar ligado sintaticamente ao texto. A frase anterior pode anunciar o aspecto que será observado; a posterior interpreta uma escolha conceitual, uma tensão ou um limite. Sem essa moldura, o leitor recebe um fragmento extenso, mas não sabe qual parte sustenta o argumento.
Também convém reduzir a extensão ao necessário. Se apenas duas frases serão analisadas, não transcreva o parágrafo inteiro. Preserve contexto suficiente para evitar distorção, mas retire, pelos sinais adequados, trechos que não participam da análise. A economia melhora a legibilidade e obriga o autor do TCC a explicar a evidência com sua própria voz.

O sistema de chamada deve ser único e conversar com as referências
A NBR 10520 admite os sistemas autor-data e numérico. A escolha não deve mudar de uma seção para outra. No numérico, cada fonte recebe um número associado à lista de referências; no autor-data, a chamada se apoia em autoria e data. O material da UFJ observa que o sistema numérico não deve ser usado quando houver notas que possam gerar conflito com a numeração.
Na prática, o manual institucional, o template do curso ou o periódico pode determinar qual sistema usar. Antes de corrigir dezenas de páginas, confirme essa regra. Depois, faça uma busca sistemática por chamadas fora do padrão: sobrenomes em estilos diferentes, anos ausentes, páginas sem “p.” quando exigido, obras citadas que não aparecem na lista e referências que nunca foram mencionadas no texto.
A correspondência não é apenas formal. Se a chamada aponta para uma edição e a referência descreve outra, a localização pode não bater. Se o texto cita uma organização, mas a referência entra pelo título sem justificativa, o leitor pode não encontrar a obra. Por isso, a conferência deve comparar chamada e referência como um par, não revisar as duas listas separadamente.
Ferramentas de gestão bibliográfica ajudam a manter consistência, mas dependem dos metadados cadastrados. O processo explicado no artigo sobre como conferir DOI e dados de uma referência é útil para limpar autoria, título, ano e publicação antes de inserir a citação no documento.
Um exemplo aplicado para escolher e integrar a forma certa
Imagine um TCC sobre permanência estudantil. O estudante encontra uma pesquisa que descreve três barreiras e quer apenas relacioná-las ao contexto analisado. Nesse caso, pode sintetizar a ideia em citação indireta, indicar a fonte e explicar quais barreiras aparecem ou não em seus dados.
Depois, encontra no regulamento institucional uma definição precisa de “trancamento excepcional”. Como a redação oficial delimita o procedimento, uma citação direta curta pode ser apropriada, acompanhada do artigo ou seção que localiza o dispositivo. Mais adiante, uma entrevista traz uma fala de seis linhas cujo encadeamento será analisado. O trecho pode entrar em bloco, com identificação do participante conforme o protocolo ético e comentário sobre as expressões relevantes.
As três formas convivem porque cumprem funções diferentes. O erro seria converter toda fonte em transcrição longa, ou transformar uma definição cuja linguagem é decisiva em paráfrase vaga. O teste não pergunta “qual formato parece mais acadêmico?”, e sim “qual tratamento permite ao leitor verificar a evidência e acompanhar minha análise?”.
Revisão final: cada citação precisa justificar seu lugar
Faça a revisão em duas passagens. Na primeira, leia apenas o argumento e marque toda citação que interrompe o raciocínio, repete a frase anterior ou não recebe interpretação. Na segunda, abra as fontes e confira fidelidade, localização, autoria, ano e correspondência com a lista de referências.
Ao terminar, o leitor deve distinguir claramente três vozes: o que a fonte afirma, o que os seus dados mostram e qual interpretação você propõe. A formatação ajuda a enxergar essa fronteira, mas não a cria sozinha. É a escrita que dá função à citação e mantém o TCC intelectualmente rastreável.



