Uma matriz de síntese organiza fontes nas linhas e critérios de comparação nas colunas para mostrar como os estudos conversam entre si. Ela não é apenas uma planilha de resumos. Seu valor aparece quando permite localizar convergências, divergências, diferenças metodológicas, lacunas e limites que sustentam a estrutura da revisão de literatura. Em vez de escrever um parágrafo por autor, o estudante passa a construir parágrafos por ideia ou problema.
A matriz deve nascer da pergunta de pesquisa. Colunas genéricas demais acumulam informação sem orientar a escrita; colunas específicas demais repetem dados que não serão usados. O modelo certo registra somente o que ajuda a comparar e interpretar o conjunto.
Defina o uso da matriz antes das colunas
Pergunte qual decisão a revisão precisa apoiar. Você quer explicar conceitos concorrentes, comparar métodos, descrever o estado de um campo ou identificar uma lacuna? A resposta determina o que será extraído. Uma revisão sobre intervenções pode precisar de população, comparação, desfecho e tempo; uma revisão teórica pode priorizar definição, pressupostos, relações entre conceitos e críticas.
O recurso de matriz de síntese da Stanford propõe relacionar fontes por temas, palavras-chave ou códigos e enfatiza convergências e divergências. O guia da Texas A&M University–Corpus Christi também apresenta a matriz como ferramenta para organizar fontes por tema. Adapte esses princípios ao tipo de revisão e às exigências do curso.
Comece com poucas fontes centrais já lidas. Se você cria dezenas de colunas antes de compreender os artigos, tende a preencher campos que não respondem à pergunta. A leitura inicial revela quais dimensões realmente variam e quais permanecem constantes.
Construa colunas que permitam comparação
Reserve as primeiras colunas para identificação rastreável: referência ou chave do gerenciador, objetivo, desenho e contexto. Depois acrescente dimensões ligadas à pergunta. Evite copiar resumos completos; escreva unidades curtas que preservem sentido e possam ser conferidas na fonte.
Um modelo inicial pode usar: referência; objetivo; população ou corpus; método; conceito central; achado relevante; limitação declarada; tema de síntese; relação com sua pergunta; página ou localização. Para documentos normativos, troque população e método por órgão, versão, escopo e vigência.

Não inclua uma coluna que terá o mesmo valor em todas as linhas. Também não misture fato extraído e interpretação própria. Você pode usar campos separados: “o estudo relata” e “implicação para a pergunta”. Essa distinção reduz o risco de atribuir ao autor uma conclusão produzida por você.
O capítulo 9 do Manual Cochrane mostra, no contexto de revisões de intervenções, como tabular características ajuda a comparar elementos PICO, agrupar estudos e preparar a síntese. Uma matriz de revisão narrativa não precisa imitar o formato Cochrane, mas deve preservar a mesma lógica: a tabela existe para tornar comparações justificáveis.
Preencha com rastreabilidade e linguagem controlada
Leia o artigo inteiro quando a informação for decisiva. Resumo e palavras-chave não bastam para avaliar método, limitações ou escopo. Registre página, seção, tabela ou figura que permite voltar ao trecho. Se usar gerenciador de referências, mantenha uma chave estável para não confundir versões.
Use termos consistentes. Se uma linha chama um desenho de “transversal” e outra usa “estudo de prevalência” para estrutura equivalente, decida se a distinção é substantiva. Não normalize diferenças relevantes, mas evite criar variação apenas por vocabulário.
Quando faltar informação, escreva “não informado”, não “não realizado”. Ausência no relato não prova ausência no estudo. Da mesma forma, limitação declarada pelo autor é diferente de uma limitação identificada por sua avaliação; separe ambas.
O fichamento acadêmico pode alimentar a matriz, mas tem outra função. O fichamento preserva a compreensão de cada texto. A matriz reorganiza partes de vários textos segundo perguntas comuns. Um não substitui o outro.
Leia verticalmente e horizontalmente
A leitura vertical acompanha um estudo pelas colunas e confere coerência interna: objetivo, método e resultado estão relacionados? A horizontal percorre uma dimensão entre estudos: como cada fonte define o conceito, mede o desfecho ou explica o mecanismo? É dessa segunda leitura que surgem os parágrafos de síntese.
Marque padrões sem usar cor como única informação. Crie códigos ou notas curtas para convergência, divergência, condição e ausência. Depois pergunte se o padrão permanece quando você considera desenho, contexto e qualidade da evidência. Três estudos podem chegar ao mesmo resultado por métodos muito diferentes; isso não autoriza tratá-los como confirmação equivalente.

Crie uma linha ou coluna de síntese provisória somente depois de preencher um conjunto suficiente. Escreva o padrão, as exceções e a condição que explica a diferença. “A maioria concorda” é fraco; “estudos com acompanhamento mais longo observam X, enquanto levantamentos transversais descrevem Y” mostra relação verificável.
Transforme a matriz em estrutura de texto
Agrupe os padrões em dois a cinco eixos que respondem à pergunta. Cada eixo pode virar uma seção ou sequência de parágrafos. Comece o parágrafo com a ideia sintetizada, apresente evidências de mais de uma fonte, explique diferenças e termine com a consequência para seu problema.
Faça um teste de redação com uma única linha temática. Esconda temporariamente os nomes dos autores e tente descrever o padrão com base em desenho, contexto e achado. Depois recoloque as referências nos pontos exatos que sustentam cada afirmação. Esse exercício impede que o sobrenome vire a estrutura da frase e ajuda a distinguir a contribuição da fonte da interpretação construída pelo conjunto.
Quando estudos discordam, não escolha automaticamente o resultado mais recente ou o que combina com sua hipótese. Compare população, definição, instrumento, período e estratégia analítica. A divergência pode indicar erro, mas também pode revelar que o fenômeno muda sob condições diferentes. Registre qual explicação está apoiada e qual permanece apenas plausível.
Não transfira a planilha inteira para o TCC. A matriz é instrumento de análise; tabelas publicadas precisam ter propósito para o leitor e podem exigir seleção de campos. Preserve a base completa como material de trabalho e produza uma apresentação mais enxuta no texto.
Evite citar cinco fontes em bloco sem explicar o papel de cada uma. Referências agrupadas são úteis quando sustentam realmente a mesma afirmação. Quando há diferença de método, contexto ou resultado, torne-a visível. O objetivo é construir uma conversa entre estudos, não uma decoração de citações.
Atualize a matriz quando a pergunta mudar
Uma mudança de recorte pode tornar colunas antigas irrelevantes ou revelar informação que não foi extraída. Revise a estrutura, volte às fontes e registre a versão. Não complete células com memória. Se novas fontes introduzem dimensão importante, verifique também os artigos anteriores.
Controle duplicatas e múltiplas publicações do mesmo estudo. Um artigo de protocolo, um resumo de congresso e o relato final podem descrever a mesma pesquisa; tratá-los como três evidências independentes distorce a síntese. Relacione os documentos na mesma linha ou use um identificador de estudo quando isso fizer sentido.
Faça uma auditoria final: cada linha corresponde a uma fonte recuperável? Cada afirmação de síntese pode ser rastreada? Fato e interpretação estão separados? As colunas respondem à pergunta? Estudos ausentes da conclusão foram excluídos por critério explícito ou apenas esquecidos?
A matriz está pronta quando ajuda a explicar não só o que cada autor disse, mas o que o conjunto permite concluir, onde as evidências divergem e qual lacuna permanece. Esse material oferece uma ponte direta para um referencial teórico articulado, no qual as fontes sustentam o argumento sem comandar a ordem do texto.



