Citar um conjunto de dados no trabalho acadêmico significa reconhecer seus criadores e permitir que o leitor encontre a versão usada na análise. A referência precisa distinguir o conjunto de dados da página que o descreve e reunir, no mínimo, criador, título, repositório ou publicador, ano e identificador persistente quando existente. Versão, tipo de recurso, data de acesso e recorte consultado tornam-se essenciais quando a base muda ao longo do tempo.
Não trate dados como material sem autoria apenas porque estão disponíveis publicamente. Também não cite automaticamente o artigo que analisou a base no lugar da própria base. Artigo, documentação, software e dados são objetos diferentes e podem precisar de referências separadas.
Identifique o objeto realmente utilizado
Comece perguntando o que entrou na pesquisa. Foi um arquivo CSV depositado em repositório? Uma versão de pesquisa com DOI? Uma tabela extraída de portal atualizado diariamente? Uma série obtida por API? Ou apenas números transcritos de um relatório?
Abra a página do conjunto e procure a citação recomendada. Confira se o título e os autores ali se referem ao conjunto completo ou a uma versão. Observe datas de publicação e atualização, número de versão, cobertura temporal, licença, publicador e identificadores. Não copie metadados de uma página de busca quando existe registro canônico.
O esquema de metadados DataCite define propriedades usadas por repositórios para descrever recursos de pesquisa. Nem todos os campos entram na referência visual, mas eles ajudam a reconhecer autoria, título, publicador, ano, tipo e identificador.
Reúna os elementos da referência
Registre criador ou organização responsável exatamente como aparece no registro. Se houver identificadores de autor, como ORCID, mantenha-os na ficha de conferência, ainda que o estilo não os exiba. Preserve a ordem apresentada pelo repositório.
Copie o título completo, incluindo subtítulo. Identifique edição ou versão, publicador ou repositório, ano de publicação da versão e tipo do recurso, como “conjunto de dados”. Acrescente DOI ou outro identificador persistente em forma de link quando a norma permitir. Se não houver identificador, use a URL estável da página do conjunto, não o endereço temporário de download.

Um molde conceitual é: CRIADOR. Título: subtítulo. Versão. Publicador ou repositório, ano. Conjunto de dados. Identificador. Ajuste pontuação, destaque e ordem ao padrão exigido pela instituição. Não invente versão “1.0” quando o depósito não a informa.
Diferencie citação no texto e referência final
A citação no texto aponta para a entrada completa da lista de referências. Use autor ou organização e ano conforme o sistema adotado. Quando o conjunto integra a análise de modo central, apresente-o também no método: origem, cobertura, data de obtenção, filtros, transformação e limitações.
Uma menção como “foram usados dados do IBGE” não identifica tabela, pesquisa, período ou versão. Informe o produto específico e cite o conjunto ou tabela canônica. Se várias tabelas do mesmo sistema foram combinadas, registre identificadores e extrações.
Para conferir DOI e metadados, siga o processo de verificação de DOI. Um DOI precisa resolver para o objeto correto; sua aparência não garante correspondência.
Cite bases dinâmicas com um recorte reproduzível
Bases dinâmicas recebem atualizações, correções ou novos registros. Nelas, o leitor precisa saber qual estado foi consultado. Inclua data de acesso quando exigida, versão ou data de atualização, intervalo temporal e parâmetros da consulta. Se o sistema fornece identificador de versão, snapshot ou DOI de coleção, prefira-o.
A orientação DataCite para conjuntos de dados dinâmicos recomenda estratégias que permitam identificar versões ou subconjuntos. Quando apenas parte da base foi usada, documente intervalo de registros, data, filtros ou consulta e mantenha o arquivo extraído quando licença e ética permitirem.

Não use somente a data em que escreveu o texto. Registre a data real de coleta. Se a base mudou entre exploração e análise final, defina qual extração sustentou os resultados e preserve essa versão.
Cite portal, documentação e dados separadamente
Uma página institucional pode explicar a metodologia da pesquisa; outra hospeda a tabela; um dicionário define variáveis; um arquivo contém os valores. Cite cada objeto quando ele sustenta uma afirmação diferente. A documentação metodológica não substitui a referência ao conjunto, e o conjunto não substitui o manual necessário para interpretar variáveis.
Se não houver uma página própria do dataset, construa a referência com os elementos disponíveis e explique no método o caminho de obtenção. O guia sobre referenciar sites e páginas da internet ajuda quando o objeto é realmente uma página web, não um depósito de dados.
Evite referências genéricas à página inicial da instituição. Elas obrigam o leitor a repetir uma navegação que pode mudar. Use o endereço mais específico, estável e autorizado.
Registre transformações e proveniência
A citação identifica a fonte, mas não descreve tudo o que ocorreu entre download e resultado. Mantenha uma ficha de proveniência com nome original do arquivo, checksum quando adequado, data de acesso, licença, filtros, exclusões, junções e código de transformação.
Se você criou um conjunto derivado, deixe claro quais fontes o compõem. Não atribua a si a autoria dos dados originais. Conforme permissões e sensibilidade, deposite código, dicionário e dados derivados em repositório e atribua identificador próprio.
Dados pessoais, sigilosos ou licenciados podem não ser redistribuídos. Ainda assim, descreva fonte e procedimento dentro dos limites éticos. “Disponível sob solicitação” deve refletir uma possibilidade real e as condições de acesso.
O guia SciELO de citação de dados reforça a importância da identificação e recuperação do recurso. Use as recomendações do periódico e da instituição para resolver detalhes de estilo.
Confira a referência antes de entregar
Abra o DOI ou URL em janela anônima e verifique se o objeto é acessível ou se a página explica restrições. Compare autores, título, versão, ano e publicador com o registro. Confirme que toda citação no texto possui referência e que nenhuma entrada ficou sem chamada.
Depois, teste a correspondência com o método. A versão citada contém o período analisado? O arquivo preservado corresponde ao total relatado? Filtros e variáveis podem ser reconstruídos? Se a resposta for negativa, a referência pode estar formalmente bonita e cientificamente insuficiente.
Faça o mesmo teste nas tabelas e figuras do trabalho. Cada número precisa voltar a uma variável, a um recorte e a uma etapa de transformação. Se duas versões da base aparecem na pasta, identifique qual gerou o resultado final e arquive a outra como exploração. Atualizar a referência sem refazer a análise, ou atualizar a análise sem registrar a nova versão, cria uma correspondência falsa. A conferência deve ligar arquivo, código, saída e texto.
Não confunda data de publicação com data de atualização. Quando o repositório mostra ambas, registre a que identifica a versão e use a data de acesso conforme o estilo. Em nomes institucionais, padronize sem apagar a denominação oficial.
Integre crédito e reprodutibilidade
Citar dados reconhece trabalho de coleta, curadoria e disponibilização. Esse crédito incentiva práticas de compartilhamento e permite medir reutilização. Por isso, preserve autoria e identificador mesmo quando o dataset pertence à mesma equipe do artigo.
No texto, explique por que a base é adequada, não apenas de onde veio. Discuta cobertura, qualidade, ausências, mudanças e possíveis vieses. A citação não transfere para o publicador a responsabilidade pela interpretação.
Uma referência de dados bem construída conduz ao objeto certo; um método bem descrito conduz ao recorte certo; e a proveniência conduz às transformações. Quando essas três camadas estão alinhadas, o leitor consegue compreender e, quando permitido, reproduzir a análise.



